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Sobre “A Dama do Martinelli”
(por Marcela Godoy)

 
"A Dama do Martinelli”, embora o projeto tenha somente adquirido forma em 2009, nasceu, na verdade, em 2006, quando da visita de David Lloyd a São Paulo. Naquela ocasião, em que fui sua cicerone na cidade, fizemos uma visita ao Edifício Martinelli, um dos maiores símbolos de São Paulo, e foi ali que as primeiras ideias acerca deste livro começaram a surgir.
 
Quem me conhece e conhece meu trabalho sabe o quanto sou apaixonada por histórias de horror.
 
Meu escritor favorito é Edgar Allan Poe. Nunca li nenhum outro autor do gênero que pudesse penetrar a mente do leitor com tanta naturalidade, força e elegância quanto Poe o fez em seus contos e em seus poemas assustadores. Não me canso de ler e reler seus escritos, desde os ensaios sobre literatura até sua prosa maravilhosa.
 
2009  foi o ano comemorativo do bicentenário do nascimento de Edgar Allan Poe. Vi, naquele ano, a ocasião e a motivação ideal para realizar este sonho de dedicar um trabalho autoral ao meu grande ídolo e maior inspirador.
 
Foi então que, ao começar a pesquisar e pensar sobre qual seria o foco deste álbum, descobri que, também em 2009, o Edifício Martinelli comemorava 80 anos de sua inauguração! Recorri, imediatamente, à pesquisa que empreendi para a visita de David Lloyd, pois me lembrei de, à época, haver escutado dos funcionários do condomínio algo sobre um “fantasma” que rondava e assombrava os andares do prédio: uma tal mulher misteriosa, de quem muitos juravam ter visto o vulto pelos cantos escuros dos andares desocupados e que, ao passar, deixava para trás um perfume de flores... Ah, sim! Aquele era o palco perfeito!
 
Retornei ao prédio para aprofundar mais minha pesquisa. Empreendi algumas visitas e entrevistas. Colhi materiais muito interessantes e uma rica coleção de imagens. A ideia era trazer o Edifício Martinelli para dentro de uma narrativa inspirada pelos contos horripilantes de Edgar Allan Poe. Mas ainda faltava o fermento... Eu sabia “o quê”, eu sabia “onde”, mas me perguntava “quando?”.
 
O “Estado de Exceção” faz oposição ao “Estado de Direito”.
 
Isso significa, em outras palavras, que os direitos e garantias constitucionais da sociedade civil são suspendidos. Num Estado de Exceção, não há espaço para o exercício da liberdade, independentemente da forma com que essa liberdade se expressa. O Estado de Exceção representa a ruptura total com a democracia, e esse rompimento se faz valer na forma da severa repressão política, do esfacelamento dos direitos individuais e coletivos, da extinção das garantias constitucionais e do uso da violência indiscriminada.
 
O Brasil, lamentavelmente, viveu em sua história um período de Estado de Exceção: a chamada Ditadura Militar, que perdurou de 1964 a 1985.
 
Durante este período, a tortura, o assassinato, o estupro e todo tipo de barbárie foram institucionalizados, ou seja, eram instrumentos de repressão e contenção reconhecidos e legitimados pelo Estado e, como tal, eram larga e indiscriminadamente utilizados contra qualquer manifestação (material ou imaterial) que se apresentasse em oposição ao regime estabelecido. Como aponta Elio Gaspari, em “A Ditadura Escancarada”, a justificativa dessa bárbara institucionalização da violência se explica porque “para presidente, ministros, generais e torcionários, o crime não está na tortura, mas na conduta do prisioneiro”.
 
Ora, essa inversão irracional e injustificada de todos os valores essenciais à vida – inclusive o próprio direito à vida, o sufocamento de toda forma de expressão, o emudecimento das ideias, a opressão e a morte, o emparedamento da sociedade civil durante o regime, tudo isso sempre me horrorizou. Mas a verdade é que minha geração sabe pouco ou quase nada sobre essa época! Há um hiato, grave e profundo, na minha história como brasileira. Em nossa história, como brasileiros!
 
O “quando” definiu-se aí.
Eu diria até que o “por quê?” também.
 
Posto isso, juntar o Edifício Martinelli, Edgar Allan Poe e a ditadura militar em um conto de horror não foi tão difícil assim...
 
Poe era um prisioneiro dele mesmo. Emparedava-se (por meio de seus personagens) sempre que podia! Suas mortes eram exageradamente violentas e, continuamente, permeadas por um profundo sentimento de opressão. Na outra ponta, o Edifício Martinelli, durante as décadas de 60 e 70, tornou-se um cortiço de trinta andares! Abrigava todo tipo de degredado e degenerado. O monumento arquitetônico de outrora, símbolo da riqueza e da prosperidade burguesas, caíra em completa desgraça, tornando-se uma favela vertical que só viria a ser recuperada em 1975, quando Olavo Setúbal, então Prefeito de São Paulo, decide desapropriar o prédio para restaurá-lo, usando, para tanto, as forças do exército na remoção dos moradores mais renitentes.
 
Daí a presença do texto e dos personagens de Edgar Allan Poe ao longo de toda obra.
 
Exceto pelo pequeno Thomé (que, no início do projeto e ao longo de todo seu desenvolvimento chamava-se Joel), todos os demais personagens têm nome extraídos de contos ou poemas de Edgar Allan Poe: Anabela (“Anabel Lee”), Morela, Berenice, Eleonora, Maria Roget (“Os Crimes da Rua Morgue”), William Wilson, Plutão (“O Gato Preto”), Tripetta e Hop-Frog (“Hop-Frog”)... Da mesma maneira, muitos discursos desses personagens também foram reproduzidos a partir de contos do Poe ou de seus poemas.
 
O projeto estava pronto. Era só definir o caminho artístico a ser seguido.

A arte de "A Dama do Martinelli"

(por Jefferson Costa)

 

A Dama do Martinelli nasceu em preto e branco.

 

Mais preto do que branco, afinal era uma história de terror. Era isso que a Marcela esperava de mim quando me deu esse presente.  Mas errou ao dizer: “Faça o que você quiser...só não vale cortar o texto.” Deu nisso.

 

A confiança que ela depositou em meu trabalho e a liberdade que tive para criar, resultaram em 132 páginas felizes (é, mais felizes do que deveriam) e coloridas. Não resisti ao fato de ter dois universos distintos para brincar na mesma história, épocas diferentes presas no mesmo espaço. Eu não estava satisfeito com o resultado em preto e branco para distinguir as duas épocas.

 

Cresci assistindo seriados dos anos 70, época  predominante no enredo. Essa bagagem acabou por ser minha maior referência. “Casal 20”, “As panteras”, (eu sei... Essas séries, de terror não têm nada! Mas não resisti!) e, principalmente, “A ilha da fantasia” (pois havia vários episódios bem sinistros pra época). Para os anos 20...Coco Chanel. 

 

Estabelecido o conceito da arte e a narrativa e diagramação de página bem resolvidos,  era só sentar e desenhar, sem preciosismos.

Entrevista para o Jornal da Gazeta, em 25/05/2011.

Para assistir, avance o vídeo até 02:11

Projeto ganhador do ProAc de HQ de 2009